Um vídeo postado no X por um perfil de fãs da Disney em meados de abril foi festejado por militantes do campo conservador. A filmagem, segundo matéria veiculada pela Fox Business, mostrava a voz de um locutor do Magic Kingdom Express Monorail, em Orlando, recepcionando o público com “senhoras e senhores”, em substituição ao neutro “sonhadores de todas as idades” adotado desde 2021. O resgate da saudação tradicional representou, para quem o celebrava, um sinal categórico de que a gigante do entretenimento abandonara a pauta “woke” — termo que alude às batalhas contra discriminações sistêmicas e que os ultraconservadores gostam de adotar de forma pejorativa. E eles estavam certos? Sim, estavam. A Disney de 2026 é bem menos “woke” que aquela do começo da década.
Sob pressões políticas e econômicas — e em sintonia com corporações como Meta, Google, Walmart, Boeing, Visa e McDonald´s — a Disney descartou, logo nas primeiras semanas do segundo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, o compromisso que havia alardeado, institucionalmente e por meio de suas produções, de dar voz às minorias e combater injustiças sociais. A virada vem sendo conduzida sem disfarces pela alta diretoria. E seu maior efeito é uma tesoura afiada que, sob protestos de funcionários e espectadores, censura as produções que chegam ao público infanto-juvenil.
Uma narrativa em favor de vozes sub-representadas
A Disney fez questão de encarnar publicamente uma perspectiva de mundo enfaticamente inclusiva no passado recente. Entre animações, longas-metragens, campanhas efusivas de marketing e políticas internas de recursos humanos, ela assumiu — de forma radical — um discurso em favor das minorias.
Em 2019, promoveu sua primeira parada gay, no parque temático de Paris, na Europa. Com shows, karaokê, atrações especiais e desfile de personagens, a Disneyland Paris Pride atraiu gente de vários países para comemorar o “orgulho LGBTQ+, sigla adotada na época para representar as múltiplas identidades de gênero ou orientações sexuais. Dois anos depois, sob as agruras da pandemia de Covid-19, lançou uma linha de produtos voltada ao tema. Roupas, broches, acessórios e pelúcias de personagens como Mickey e Minie foram confeccionados nas cores da bandeira gay e espalhados pelo mundo.
Ainda em 2021, a Disney lançou o programa Reimagine Tomorrow, concebido para estampar sua política institucional de diversidade, igualdade e inclusão (DEI, na sigla em inglês). Com o lema de “amplificar vozes sub-representadas e histórias não contadas”, seus executivos comunicavam o desejo de cultivar um ambiente em que todas as pessoas se sentissem bem-vindas e valorizadas em suas experiências de vida, perspectivas e cultura únicas. Um lugar em que “visões e ideias diversas são contribuições essenciais para o sucesso coletivo”, diziam.
A luta antirracismo era um dos pontos centrais da agenda DEI. E, assim como as outras ações “woke”, tornou-se alvo de críticas dos ultraconservadores. Um deles é o ativista Christopher Rufo, combatente do que ele mesmo chama de “regime ideológico de esquerda”. Em maio de 2021, Rufo escreveu o artigo “Disney, o lugar mais progressista da Terra”, no qual conta ter tido acesso a materiais internos que circulavam entre funcionários e colaboradores com o objetivo de conscientizá-los sobre a longa história de racismo sistêmico e transfobia nos Estados Unidos. Nos textos, segundo as fontes do ativista, a Disney dizia que era preciso desenvolver empatia com essas pessoas, estar vigilante e “atentar para as microagressões e os vieses implícitos ao se relacionar com raças diferentes”. A inclusão não era assunto apenas da área de comunicação; estava também na linha frente dos trabalhos do time de RH.
A Disney não poupava nem suas próprias criações das críticas ao preconceito sistêmico. Quando lançou seu serviço de streaming, o Disney +, no fim de 2019, passou a exibir um aviso logo no início das obras clássicas que continham conteúdo racista: “Esse programa é apresentado conforme foi originalmente criado. Ele pode conter representações culturais ultrapassadas”, alertava. Em outubro do ano seguinte, após a mobilização de milhões de pessoas nos Estados Unidos contra os ataques violentos da polícia norte-americana a integrantes da comunidade negra, a advertência ganhou um texto mais encorpado e contundente. Passou a dizer, em tradução livre:
“Esses estereótipos eram errados no passado e são errados hoje em dia. Em vez de eliminarmos esse conteúdo, queremos reconhecer seu impacto prejudicial, aprender com isso e despertar conversas para a construção de um futuro mais inclusivo juntos”.
Obras diversas do estúdio passaram a estampar o aviso. Dumbo, de 1941, o simpático elefantinho que encantou gerações, foi uma delas. Uma cena do filme mostra um grupo de corvos em uma apresentação musical que alude aos chamados menestréis (minstrel shows), espetáculos comuns nos Estados Unidos do século 19 em que artistas brancos pintavam o rosto de preto e faziam piadas para ridicularizar escravos. O líder dos corvos no filme, para piorar, chama-se Jim Crow, o mesmo nome do conjunto de leis norte-americanas que institucionalizou a segregação racial e o racismo nos estados do sul. O alerta foi incluído também em produções como Peter Pan (1953), no qual indígenas são apresentados sob o termo “pele-vermelhas” e falam, numa abordagem que sugere certo deboche, uma língua incompreensível; A dama e o vagabundo (1955), em que uma dupla de gatos malvados exibe, não por acaso, traços asiáticos exagerados; e Aladin (1992), que retrata o Oriente Médio como uma terra exótica, atrasada e repleta de perigos.
A companhia posicionou-se institucionalmente até mesmo em episódios públicos de polarização política. Em fevereiro de 2021, demitiu Gina Carano de The Madalorian, a primeira série live-action (com atores reais) da franquia Star Wars. A atriz, em post no Instagram, havia comparado as críticas de democratas ao Partido Republicano à perseguição e ao genocídio dos judeus na Alemanha nazista. A Lucasfilm, subsidiária da Disney e produtora da série, declarou que as postagens de Carano — que também meteu os pés pelas mãos ao ridicularizar o uso de máscaras durante a pandemia de Covid-19 e ao dar seu apoio a teorias falsas sobre fraude eleitoral— eram “abomináveis e inaceitáveis”.
Entre a primeira princesa negra e o beijo gay, uma era revolucionária
Os ideais progressistas emergiram nos desenhos animados da Disney a partir de 2006, ano em que a companhia comprou de Steve Jobs a prestigiada Pixar. Conhecida por subverter clichês e pelo célebre Toy story, a Pixar já trazia em seu repertório filmes com alguma carga de crítica social como Vida de inseto (1998) e Procurando Nemo (2003).
Em 2009, a Disney exibiu sua primeira princesa negra. Em A princesa e o sapo, a jovem e batalhadora Tiana vive em New Orleans e luta para realizar o sonho de abrir o próprio restaurante. Ao conhecer o irresponsável e ganancioso príncipe Naveen, que por feitiço havia sido transformado em sapo, ela ingressa em uma série de aventuras, sempre no papel de dar a ele lições de moral para sair de suas enrascadas.
Na década seguinte, uma sequência de filmes concebidos sob ideais progressistas e de esquerda chegaria às telas. Alguns deles:
Valente (2012): a protagonista é a jovem Princesa Merida, que rejeita um casamento arranjado e prefere lutar pelo próprio destino. Ela detesta as roupas desconfortáveis e os padrões de comportamento impostos pela realeza às mulheres. Prefere atividades historicamente vistas como masculinas, como andar a cavalo e arco e flecha;
Moana (2016): a princesa indígena é uma líder corajosa e determinada que desafia os limites impostos por sua tribo. Sem par romântico, ela luta para restaurar o ecossistema da ilha onde vive e trazer fertilidade de volta aos oceanos;
Zootopia (2016): por meio de animais predadores e presas, o longa aborda metaforicamente temas como o racismo estrutural, privilégios, formação de estereótipos e o perigo de profecias autorrealizáveis na sociedade;
Viva: a vida é uma festa (2017): fora do escopo eurocêntrico, propõe um mergulho na cultura mexicana para celebrar a ancestralidade, a família e a memória;
Segredos mágicos (2020): o curta-metragem exibe o primeiro protagonista gay do repertório da Disney, além de um beijo entre dois homens. A produção traz uma história leve e sensível sobre um rapaz que cria coragem para apresentar o namorado à família.
Eternos (2021): o live-action da Marvel (adquirida pela Disney em 2009) apresenta a família do super-herói imortal Phastos, um homem negro casado com outro homem e pai adotivo de um menino. O longa traz também uma super-heroína surda, a primeira com a deficiência no universo Marvel.
A pequena sereia (2023): a princesa Ariel, loura e branca na animação clássica de 1989, aparece neste longa interpretada pela atriz negra Halle Bailey. A obra foi alvo de discursos de ódio racistas contra a protagonista e o estúdio.
Branca de Neve (2025): o live-action do clássico de 1937 traz a atriz colombiana Rachel Zegler no papel da protagonista — que, no conto original, era descrita como aquela que tem “a pele branca como a neve”. A personagem tampouco sonha apenas com o amor verdadeiro: seu objetivo é se tornar uma líder justa e valente.
O “novo amanhã” imaginado pela casa do Mickey Mouse era certamente ousado para uma corporação criada no início do século 20 por um conservador e anticomunista convicto, o cineasta Walt Disney. E era, ao menos segundo as aparências, um “propósito” carregado de obstinação. No artigo “A place where everyone is welcome”, de 2021, o presidente do conselho na época, Josh D´Amaro, afirmava, entre imagens do Michey com as cores da bandeira gay e de crianças de etnias distintas brincando juntas, que nunca iria parar de trabalhar para que a Disney fosse um lugar em que todos fossem bem-vindos. Sim, o mesmo D´Amaro que, cinco anos depois, assumiria o cargo de CEO e, conforme o vídeo dos fãs citado no começo da reportagem, solaparia a saudação em linguagem neutra adotada nos parques temáticos de Orlando.
É certo que, naquele 2021, período mais letal da pandemia na maior parte do mundo, a Disney não tentava somente ser o lugar mais feliz da Terra (conforme prega o tradicional “the happiest place on Earth”, adotado desde a inauguração da Disneylândia, em 1955). Ela queria mesmo ser — ou parecer ser — o lugar mais progressista da Terra.
O amanhã (re) reimaginado sai da tela cheia e vira um detalhe
A construção do futuro novo, contudo, durou pouco. Ou certamente bem menos do que a retórica construída pelas áreas de marketing e de recursos humanos propalava. Seu malogro começou a ser ventilado sutilmente ainda em 2023, quando o CEO Bob Iger disse na assembleia anual de acionistas:
“Nossa missão principal tem de ser a de entreter. Não devemos ser guiados por uma agenda, mas sim pela missão de entreter.”
A mensagem pode ter passado despercebida pelo público em geral naquele momento, mas quem conhecia a Disney por dentro, como os funcionários, sabia o que ele queria dizer. Um dos gatilhos para que o estúdio começasse a titubear havia surgido um ano antes do discurso de Iger, quando a companhia se manifestou abertamente contra uma lei do estado da Flórida que proibia discussões sobre identidade de gênero e orientação sexual nas escolas primárias. O posicionamento enfureceu o governador ultradireitista Ron DeSantis, que, em represália, revogou o status de autogoverno da área dos parques temáticos, designada como distrito autônomo e administrada diretamente pela Disney desde 1960. Para completar o pacote de vingança, ele substituiu os membros da cúpula do complexo denominado Walt Disney World por seus aliados políticos.
Outro gatilho, ao que parece, foi a deterioração dos resultados financeiros do grupo. O fechamento prolongado dos parques durante a pandemia, os elevados investimentos para criação da plataforma de streaming e o fraco desempenho na bilheteria corroeram os lucros, que só começariam a se recuperar em 2025. O esforço para cortar custos, aliás, segue a todo vapor. Em abril, o recém-empossado Josh D´Amaro anunciou a demissão de cerca de mil funcionários.
Contundida pela canelada de DeSantis e acovardada pelo trumpismo no poder, a Disney começou a enxergar a agenda progressista e inclusiva como um fator de risco a ser expurgado. Em fevereiro de 2025, um comunicado interno assinado pela chefe de recursos humanos Sonia Coleman — obtido e noticiado na época pelo site Axios — informou que certas condutas inseridas no programa de “diversidade, igualdade e inclusão” seriam abolidas.
O primeiro alvo foi o alerta sobre conteúdos racistas dos filmes clássicos. O texto autocrítico foi substituído por um outro, mais sóbrio e parecido com a versão criada inicialmente: esta obra é “apresentada como originalmente criada e pode conter estereótipos ou representações negativas”. A ceifada maior, contudo, foi na exibição do texto: o aviso deixou de aparecer em tela cheia no início do filme para ser alocado discretamente na aba “detalhes” do menu inicial no canal de streaming, visível apenas para quem clica nela — onde segue até hoje.
O sistema de avaliação e remuneração dos funcionários também foi ajustado para refletir as mudanças. O item “diversidade e inclusão”, que contribuía positivamente para o desempenho dos colaboradores, continuou existindo, mas passou a ser vinculado a métricas de sucesso nos negócios. O site “Reimagine Tomorrow”, em sintonia com as outras ações, foi desativado.
Da jogadora trans ao crush gay, histórias que ficaram fora das telas
As obras também entraram na mira da censura. Especialmente aquelas cuja produção havia sido iniciada anos antes, durante a onda progressista. A série Ganhar ou Perder foi um desses casos. Exibida no canal de streaming, a trama retrata um time infantil de softball na semana que antecede um campeonato. Cada episódio, de um total de oito, mostra a história a partir da perspectiva de um personagem diferente. Uma delas, Kai, jogadora excepcional, foi planejada para ser uma criança negra e trans, mas a Disney, na edição final, retirou as falas que faziam referência a sua identidade de gênero. No episódio 7, intitulado “I got it”, a personagem aparece simplesmente como uma menina cis, com suas características físicas mantidas.
Provavelmente ninguém de fora do estúdio teria ficado sabendo do apagamento não fosse o fato de Chanel Stewart, uma garota transgênero que havia sido selecionada no começo do projeto para fazer a voz da Kai, ter contado tudo em uma entrevista ao Deadline. Naquele dezembro de 2024, mês em que a série chegaria ao streaming, ela relatou que havia acabado de receber uma ligação de um executivo da Disney informando que a personagem não seria mais uma menina trans.
“Foi muito decepcionante, porque minha filha é transgênero e essa é a vida dela. Senti que seria importante não escondermos isso”, disse a mãe de Stewart ao Deadline.
Questionada, a Disney abriu o jogo. Enviou uma resposta formal ao veículo dizendo que, quando se trata de animações voltadas ao público infanto-juvenil, “muitos pais prefeririam discutir certos assuntos com suas crianças nos seus próprios termos e no seu tempo”.
Outra vítima entre as animações censuradas está Elio. O filme concebido e dirigido por Adrian Molina (que é abertamente gay) trazia em sua versão inicial, produzida em 2023, um protagonista de 11 anos cujos pôsteres no quarto sugeriam a paixão por outro menino. Após apresentações internas para a diretoria da primeira montagem, Molina teria decidido abandonar o projeto, segundo reportagem do The Hollywood Reporter publicada em junho do ano passado, mês de lançamento do filme (Elio também atrasou para chegar aos cinemas devido à greve em Hollywood). Molina teria se recusado a aceitar os cortes exigidos: além do crush gay, a diretoria também vetou, segundo a reportagem, uma cena em que o protagonista recolhia lixo na praia e o transformava em roupas improvisadas — entre elas, uma regata cor-de-rosa.
Outros integrantes da equipe de Molina se desiludiram e se retiraram do projeto, segundo a matéria. Algumas digitais das intenções do diretor, no entanto, resistiram. Uma delas é a música “Don´t stop me now”, que encampa o trailer e é um dos destaques da trilha sonora. A canção, da banda britânica de rock Queen, celebra a liberdade de escolhas e reflete o estilo de vida de Freddie Mercury no fim dos anos 70, marcado pela presença nos clubes gays. Em Elio, “Don´t stop me now” é, ironicamente, o vestígio de um amanhã interrompido.
A tesoura conservadora parece ter atingido também o live-action de Lilo & Stitch, lançado em maio de 2025. O filme trouxe uma mudança em relação à animação original, de 2002: nesta, o alienígena Pleakley, ex-agente que vem à Terra para capturar o protagonista Stitch, disfarçava-se usando perucas e vestidos. Na adaptação recente, porém, o alienígena disfarçava-se usando um dispositivo tecnológico que o convertia em humano, eliminando os vestidos e as perucas. A mudança desagradou os fãs, que viam no ex-agente um ícone drag. O diretor, Dean Fletcher Camp, revelou depois que tentara manter a versão original, mas não conseguiu aprovação.
Há ainda informações de que uma produção teria sido cancelada antes mesmo de as filmagens começarem: o filme Be Fri, uma trama sobre duas amigas adolescentes que teriam de atravessar o universo para salvar a humanidade. Segundo reportagem do Wall Street Journal e uma apuração do The Hollywood Reporter, a produção teria sido suspensa no fim de 2023. Na visão do diretor de criação da Pixar, Pete Docter, o mesmo que teria censurado Elio, os meninos não iriam se conectar com uma história de empoderamento feminino.
Um Superman imigrante sob as ameaças de Lex Luthor, o bilionário vilão das redes sociais
Enquanto a Disney virava a casaca, a todo-poderosa dos quadradinhos DC Comics, historicamente associada a valores progressistas e criadora de super-heróis como Superman, Batman e Mulher-Maravilha, reforçava seu posicionamento do outro lado do espectro político e ideológico. Em julho de 2025, meses após a posse de Trump, o estúdio lançou um filme do Superman com uma série de referências a temas da geopolítica e cutucadas em personagens da extrema direita.
Nascido no planeta Krypton e enviado por seu pai à Terra ainda bebê, Kal-El, o Superman, é retratado como um imigrante que sofre uma série de injúrias. Seu principal vilão, Lex Luthor, é um bilionário quem tem a obsessão de desmoralizá-lo e matá-lo simplesmente pelo fato de ele ser um estrangeiro. O significado das ações de Luthor é frequentemente contestado, como na cena em que Clark e sua namorada, Lois Lane, ambos jornalistas, discutem sobre a invasão da Borávia empreendida por Luthor. Enquanto Lois tem dúvidas sobre quem está certo ou errado no conflito, Clark crava que se trata de um genocídio e que a ocupação do território é injustificável.
As semelhanças de Luthor com o trilionário Elon Musk criam outra insinuação — nesse caso, divertida. Além de influenciar a tomada de decisões do governo com um lobby poderoso, Luthor dispõe de um laboratório em que diversos macaquinhos postam comentários de ódio e mentiras para difamar o super-herói nas redes sociais. A carga política do filme é escrutinada por Stefano Romano e Carolina Azevedo, graduandos do Instituto de Relações Internacionais da USP, neste artigo.
Outros exemplos da subversão dos modelos tradicionais pela DC são a revelação do filho de Clark Kent e Lois Lane, Jonathan Kent, como bissexual na quinta edição da HQ Superman: Son of Kal-El; de Robin, o menino prodígio parceiro do Batman, como bissexual na revista Batman: Urban Legends; e da personagem Dreamer (Sonhadora), que, em 2018, seria a primeira super-heroína transgênero da televisão nos Estados Unidos (série Supergirl).
A plataforma Bentkey e o ataque à esquerda, onde ela existir
A pauta progressista dos titãs do entretenimento infanto-juvenil suscitou, do outro lado, reações da direita conservadora. O conglomerado de mídia dos Estados Unidos The Daily Wire, fundado pelo comentarista político conservador Ben Shapiro e pelo produtor e diretor de cinema Jeremy Boreing, lançou, em 2023, um canal de streaming por assinatura para rivalizar com a programação da Disney. “Nós temos que desafiar a esquerda em todo lugar em que ela existir”, disse Boreing ao anunciar a Bentkey. Projetada para oferecer a crianças “conteúdos sem ideologias políticas, focados em valores tradicionais”, a plataforma recebeu um investimento inicial de 100 milhões.
No catálogo de produções originais da Bentkey está Chip Chilla, animação que retrata uma família de cães chinchilas educados em casa pela família. A série é entendida como uma reação a Bluey, a famosa e bem-sucedida franquia global criada pelo australiano Ludo Studio. Nela, duas crianças (representadas pelas cadelas Bluey e Bingo) brincam livremente e impõem desafios e descobertas à mãe carinhosa e ocupada com o trabalho e ao pai participativo e emocionalmente conectado com as filhas. Chip Chilla, logo na primeira cena, ao contrário, não deixa dúvidas sobre suas preferências ideológicas: o pai das crianças, interpretado na voz do comediante ultraconservador Rob Schneider, lê calmamente o jornal, enquanto a mãe se ocupa sozinha das tarefas da casa.
Anos antes, em 2021, quando o verniz progressista da Disney era radiante, outra reação da extrema-direita já tinha surgido nos Estados Unidos: a série Tuttle Twins, baseada nos livros homônimos de Connor Boyack. Criada para promover o bitcoin, o livre mercado e os direitos individuais, além de questionar a postura de universidades e o papel do Estado, a animação traz os irmãos Ethan e Emily e sua avó Gabby em viagens no tempo “para descobrir histórias e princípios que a escola raramente ensina”. Uma de suas antagonistas, Karinne, é uma menina que veste roupa vermelha e idolatra Karl Marx e o comunismo. A produtora, a Angel Studios, atende a um público conservador e religioso. Seu foco são histórias com valores tradicionais, cristãos e familiares, “que ampliem a luz”. Em 2025, o presidente ultradireitista Javier Milei, da Argentina, incluiu Tuttle Twins na programação do canal estatal infantil do país, o Paka Paka.
A política é basilar para a vida em sociedade, e as crianças, como não poderia deixar de ser, participam dela desde cedo. Há quem prefira ignorar o caráter ideológico dos produtos culturais infantis, mas essa é uma escolha arriscada. Os interesses em manter sistemas de opressão e de privilégios estão neles representados, assim como as tentativas de combatê-los. Para as crianças, os desenhos animados podem ser um instrumento de alienação, mas não só isso. Eles são também um convite a ingressar criticamente no território das guerras culturais, aprender com as histórias e, a partir delas, despertar conversas. Não era essa, aliás, a proposta da Disney?







